
O Edital nº 01/2026 do Projeto Floresta+ Amazônia representa uma importante oportunidade para povos e comunidades tradicionais. Entretanto, uma de suas exigências merece ser revista.
O edital determina que comunidades sem território formalmente delimitado somente poderão apresentar propostas se estiverem cadastradas na Plataforma de Territórios Tradicionais – PTT.
A Plataforma de Territórios Tradicionais é importante e deve ser fortalecida. O problema é transformá-la em condição para que uma comunidade seja reconhecida como apta a acessar uma política criada justamente para povos historicamente invisibilizados.
Uma comunidade não começa a existir quando entra em uma plataforma. O território existe antes do cadastro, e a identidade coletiva existe antes do formulário.
Há também uma questão relacionada à Convenção 169 da OIT. Diante de uma medida administrativa capaz de afetar diretamente povos e comunidades tradicionais, é legítimo perguntar: houve Consulta Livre, Prévia e Informada — CLPI, por meio de suas instituições representativas, antes da definição desse critério?
Antes de exigir que os povos provem ao Estado que existem, é preciso saber se o Estado efetivamente os ouviu.
Não defendemos ausência de controle. Defendemos alternativas de comprovação.
Comunidades ainda não cadastradas na PTT poderiam demonstrar sua existência e relação tradicional com o território por meio de autodeclaração acompanhada de ata; declaração de associação ou organização representativa; manifestação de conselhos de PCTs; reconhecimento de órgãos públicos; protocolos comunitários; documentos que comprovem o uso tradicional do território; estudos existentes ou mesmo comprovação de cadastramento em andamento.
O próprio Floresta+ poderia ser utilizado para apoiar essas comunidades no posterior ingresso na PTT.
Por isso, defendemos a revisão do critério.Não queremos menos controle. Queremos mais inclusão.
Não queremos enfraquecer a PTT. Queremos fortalecê-la sem transformá-la em barreira.
Políticas destinadas aos povos e comunidades tradicionais não podem excluir justamente aqueles que ainda lutam para serem reconhecidos pelo Estado.
Não se combate a invisibilidade excluindo os invisibilizados.
João Bosco Campos
Representante do segmento ribeirinho
Membro da Coordenação de PCTS da REDE GTA