Declaração internacional aponta que crise climática é resultado de um sistema que transforma territórios em zonas de sacrifício e convoca resistência global.

Santa Marta (Colômbia) – Em um momento marcado pelo agravamento da crise climática e pela intensificação das disputas geopolíticas por recursos naturais, organizações, movimentos sociais e povos de diferentes territórios lançaram um alerta contundente: o mundo vive uma “guerra contra a vida” impulsionada pelo avanço do extrativismo predatório e pela permanência de um modelo energético baseado em combustíveis fósseis.
A denúncia integra a Declaração da Conferência por Territórios Livres de Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, no dia 25 de abril de 2026, que reúne vozes de resistência frente ao que classificam como um sistema de “capitalismo do caos”, responsável por aprofundar desigualdades, conflitos e destruição ambiental.
A falsa transição energética
Um dos pontos centrais da declaração é a crítica direta à chamada “transição energética corporativa”. Segundo os participantes, o atual modelo não representa uma mudança estrutural, mas sim uma reconfiguração do mesmo sistema de exploração, agora ampliado pela demanda por minerais estratégicos e novas tecnologias. O documento aponta que, longe de reduzir impactos, essa lógica tem ampliado a pressão sobre territórios, especialmente em regiões como a Amazônia, colocando em risco ecossistemas inteiros e comunidades que dependem diretamente deles para viver.

Territórios sob ataque
A declaração também evidencia que os impactos do extrativismo vão além da dimensão ambiental. Eles se manifestam em violência, deslocamentos forçados, criminalização de defensores e ataques a mulheres e comunidades tradicionais. Nesse cenário, os territórios deixam de ser apenas espaços geográficos e passam a ser reconhecidos como campos de disputa política e de sobrevivência, onde se travam guerras silenciosas todos os dias.
Da resistência à construção de alternativas
Apesar do diagnóstico crítico, o documento não se limita à denúncia. Ele afirma que os povos não apenas resistem, mas também constroem caminhos concretos para outro modelo de sociedade. Entre as estratégias destacadas estão o fortalecimento da organização comunitária, a articulação entre saberes ancestrais e ciência, mobilização social e ação direta, e uso de instrumentos legais e consultas populares. Além disso, a declaração reforça que já existem alternativas vivas, baseadas em agroecologia, economias comunitárias e formas de geração de energia geridas pelos próprios povos, modelos que colocam a vida acima do lucro.
Um chamado direto aos governos
Em um dos trechos mais incisivos, os participantes fazem um apelo e uma cobrança às autoridades globais: Não há transição possível sem justiça. Não há futuro negociável quando a vida está em jogo. A mensagem é clara, não basta reformular discursos ou criar narrativas “verdes”. É necessário enfrentar as causas estruturais da crise e assumir responsabilidades históricas.
Amazônia como território de resistência

A declaração também reafirma a importância de reconhecer territórios como a Amazônia como sujeitos de direitos, defendendo sua consolidação como zonas livres de novas atividades extrativas.Mais do que uma pauta ambiental, trata-se de uma disputa por um projeto de futuro. De um lado, a continuidade de um modelo baseado na exploração; do outro, a defesa de formas de vida que garantam equilíbrio, justiça e sustentabilidade.
O tempo da escolha
O documento encerra com um posicionamento político direto: este é um momento decisivo. Ou se aprofunda o modelo que gera devastação, ou se constrói, junto aos povos, uma transição real, baseada na justiça, na autonomia e no respeito à vida.
Leia a declaração completa:
DECLARAÇÃO DA CONFERÊNCIA POR TERRITÓRIOS LIVRES DE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS
Vivemos um tempo que se rasga a si mesmo. Um tempo em que o capitalismo predador, convertido em um capitalismo do caos, avança como uma tempestade sem horizonte, semeando incerteza, contradições e medo. As disputas geopolíticas pelo controle da natureza e dos territórios se intensificam, empurrando-nos para múltiplas guerras. Não são apenas as guerras visíveis em Gaza, Irã, Ucrânia ou as ameaças de intervenção na Venezuela. São também as guerras silenciosas travadas todos os dias em nossos territórios.
No avanço do extrativismo, na contaminação de rios e solos, nas ameaças de empresas e Estados contra defensores, nos deslocamentos forçados, na violência contra as mulheres e nos ecocídios. Trata-se, em essência, de uma guerra contra a vida.
Habitamos um mundo onde as regras se diluem e o multilateralismo se desvanece, onde a lei do mais forte substitui a justiça e a solidariedade parece uma língua esquecida.
Nesse cenário, a chamada transição energética corporativa, junto aos interesses geopolíticos e imperiais e à expansão tecnológica, incluindo a inteligência artificial, não reduziu a voracidade do sistema, mas aumentou a demanda por energia fóssil e por minerais, incluindo os chamados minerais críticos e as terras raras. Essa dinâmica intensifica as pressões sobre nossos países, povos e territórios, colocando em risco rios, montanhas, mares e todos os ecossistemas que sustentam a vida.
A expansão do extrativismo não chega sozinha. Ela vem acompanhada do avanço do autoritarismo, da repressão, da militarização e de novas formas de fascismo que buscam disciplinar os povos e silenciar suas resistências.
Diante desse panorama, não nos rendemos. Resistimos, lutamos, sonhamos e, sobretudo, construímos. Construímos Territórios Livres de Combustíveis Fósseis como uma forma concreta de deter a expansão do extrativismo e de abrir caminhos para outros mundos possíveis.
Nós que participamos desta Conferência trouxemos nossas histórias, nossas feridas e nossas esperanças. Tecemos coletivamente estratégias para enfrentar a indústria de hidrocarbonetos em todas as suas fases.
Destacamos a incidência jurídica, o monitoramento comunitário que articula ciência e saberes ancestrais, os processos de formação nos territórios, a proteção do tecido comunitário e o fortalecimento da comunicação para dar visibilidade às nossas lutas. Também afirmamos a importância da mobilização, da ação direta, dos exercícios de democracia radical e da construção de alianças em todos os níveis.
Reconhecemos o valor das consultas prévias, livres e informadas reconhecidas nos instrumentos internacionais, bem como das consultas populares e dos protocolos comunitários, como ferramentas legítimas e poderosas que têm permitido aos povos dizer não ao extrativismo em diversos territórios.
Ao mesmo tempo, afirmamos que não apenas resistimos. Também propomos. Já existem alternativas vivas em nossos territórios, baseadas em economias comunitárias, agroecologia e energias geridas pelos próprios povos. São caminhos que priorizam a vida, a justiça social e o equilíbrio com a natureza acima da acumulação de capital.
AFIRMAMOS QUE
• não pode haver territórios livres de combustíveis fósseis sem territórios de paz e não há paz sem verdade, justiça e reparação integral para os povos e para a natureza.
• a defesa do território é uma ação fundamental para proteger a vida, o que implica fortalecer o tecido social, garantir a proteção de quem defende a vida e articular esforços entre comunidades, organizações, academia e sociedade civil.
• uma transição energética justa exige que nos perguntemos energia para quê e para quem.
• devemos interromper o financiamento que sustenta o extrativismo, exigindo responsabilidade de empresas, bancos e investidores pelos impactos que geram e pela reparação dos mesmos, incluindo a restauração integral dos ecossistemas afetados.
• é necessário construir um multilateralismo dos povos, capaz de representar os direitos da natureza e de todos os seres que a habitam.
• reconhecemos a Amazônia, os mares, os páramos, as geleiras e outros territórios como sujeitos de direitos, propondo sua consolidação como zonas de exclusão livres de novas atividades extrativas.
• devemos articular nossas lutas, fortalecer nossas estratégias e tornar realidade nossos sonhos coletivos.
EXIGIMOS o respeito à autodeterminação dos povos, à sua autonomia e à sua soberania territorial, incluindo o direito de dizer não e de defender sua soberania alimentar e energética.
E a vocês, governos e autoridades reunidos nas conferências oficiais, falamos com a clareza de quem defende a vida. Não venham administrar o colapso nem maquiar a destruição com novos discursos verdes. Escutem os povos, reconheçam os limites da Terra e assumam sua responsabilidade histórica. Não há transição possível sem justiça, não há futuro negociável quando a vida está em jogo. A história não lembrará suas promessas, mas suas decisões. Este é o tempo, e não outro, de escolher entre aprofundar a devastação ou caminhar, junto aos povos, rumo à defesa radical da Vida.
Santa Marta, 25 de abril de 2026