DOCUMENTÁRIO TERRITÓRIO EM TRÂNSITO NO FOSPA

Documentário da Rede GTA e do Coletivo Pororoka leva ao FOSPA e ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza os relatos de pescadores do Marajó sobre os impactos da navegação e os riscos da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Poster do documentário Território em Trânsito. Filmado no Arquipélago do Marajó e exibido no Festival ECOador que acontece durante o Fospa no Equador.

O Marajó atravessou as fronteiras da Amazônia e chegou ao XII Fórum Social Pan-Amazônico, que acontece no Equador. Durante a programação do FOSPA, o documentário “Território em Trânsito”, uma produção da Rede de Trabalho Amazônico GTA em parceria com o Coletivo Pororoka, foi apresentado ao público no ECOador, Festival Internacional de Cine Ambiental.Mas a exibição não aconteceu por acaso.

O filme também foi levado ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza como uma das evidências apresentadas durante a sessão “Amazônia livre de combustíveis fósseis”. O documentário coloca no centro do debate quem quase nunca aparece quando grandes projetos de infraestrutura e exploração de recursos naturais são discutidos, os pescadores e as comunidades que vivem no Marajó.

Jaqueline Gonçalves. Mulher marajoara e descendente de pescadores do Marajó. Criada em meio à redes e canoas de dua família.

“Território em Trânsito” mostra uma realidade que já faz parte do cotidiano dessas comunidades. Grandes navios atravessam constantemente a região e dividem espaço com pequenas embarcações de pesca artesanal. Para quem depende do rio e do mar para sobreviver, esse movimento não é apenas uma questão de trânsito de embarcações. Redes são danificadas, barcos precisam mudar de rota e alguns pescadores contam que deixaram até de sair à noite por medo de acidentes.

E enquanto a pesca artesanal enfrenta essas dificuldades, existe uma preocupação ainda maior no horizonte. É a possibilidade de avanço da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Os pescadores do Marajó temem que uma atividade desse tamanho possa aumentar a pressão sobre um território que já enfrenta uma série de problemas sociais e ambientais.

Documentário com pouco mais de sete minutos foi aplaudido pelo público do Festival ECOador que ocorreu no Fospa no Equador essa semana. Na tela, Nelson Bastos, Coordenador da Rede GTA Marajó.

O documentário também registra uma preocupação que vem das próprias águas. Os pescadores contestam a ideia de que um eventual vazamento de petróleo na região da Foz do Amazonas não teria impacto sobre o Marajó. Eles contam que objetos lançados ou perdidos em áreas próximas ao Oiapoque já apareceram nas praias do arquipélago, o que, segundo eles, mostra que a dinâmica das correntes é muito mais complexa do que aparece nos modelos usados para prever um possível vazamento.

No filme, a fala dos pescadores também revela o que está em jogo. A pesca que sustentou gerações está ficando cada vez mais difícil. Espécies como a pescada amarela e a pescada branca estão mais raras, segundo os relatos, enquanto a dourada, antes abundante, praticamente desapareceu de algumas áreas. Para encontrar peixe, muitos precisam ir cada vez mais longe, gastando mais combustível e ficando mais tempo longe de casa.

Lucivaldo Santos – pescador marajoara, nascido na Comunidade de pescadores de Água Boa no Marajó. Uma das vozes escutadas para compor o documentário Território em Trânsito.

É essa realidade que “Território em Trânsito” levou para o FOSPA e para o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza. Mais do que falar sobre petróleo, o filme fala sobre território, sobrevivência e sobre quem vai pagar a conta caso novos projetos de exploração avancem sobre a Amazônia. Do Marajó para o mundo, os pescadores deixam um recado simples. Antes de decidir pelo futuro do petróleo, é preciso ouvir quem já vive há gerações nas águas que estão sendo colocadas em risco.

O documentário foi realizado pela Rede de Trabalho Amazônico GTA e pelo Coletivo Pororoka, com direção de Lucas Escócio e Lucas Negrão, câmera de Lucas Escócio, Lucas Negrão e João Paulo Guimarães, roteiro de Lucas Escócio, Lucas Negrão e João Paulo Guimarães, entrevistas e pesquisa de Elielson Almeida e Nelson Bastos, montagem de Lucas Escócio e produção e logística de Thiago Cabral e Nelson Bastos.

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