Documentário da Rede GTA e do Coletivo Pororoka leva ao FOSPA e ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza os relatos de pescadores do Marajó sobre os impactos da navegação e os riscos da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

O Marajó atravessou as fronteiras da Amazônia e chegou ao XII Fórum Social Pan-Amazônico, que acontece no Equador. Durante a programação do FOSPA, o documentário “Território em Trânsito”, uma produção da Rede de Trabalho Amazônico GTA em parceria com o Coletivo Pororoka, foi apresentado ao público no ECOador, Festival Internacional de Cine Ambiental.Mas a exibição não aconteceu por acaso.
O filme também foi levado ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza como uma das evidências apresentadas durante a sessão “Amazônia livre de combustíveis fósseis”. O documentário coloca no centro do debate quem quase nunca aparece quando grandes projetos de infraestrutura e exploração de recursos naturais são discutidos, os pescadores e as comunidades que vivem no Marajó.

“Território em Trânsito” mostra uma realidade que já faz parte do cotidiano dessas comunidades. Grandes navios atravessam constantemente a região e dividem espaço com pequenas embarcações de pesca artesanal. Para quem depende do rio e do mar para sobreviver, esse movimento não é apenas uma questão de trânsito de embarcações. Redes são danificadas, barcos precisam mudar de rota e alguns pescadores contam que deixaram até de sair à noite por medo de acidentes.
E enquanto a pesca artesanal enfrenta essas dificuldades, existe uma preocupação ainda maior no horizonte. É a possibilidade de avanço da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Os pescadores do Marajó temem que uma atividade desse tamanho possa aumentar a pressão sobre um território que já enfrenta uma série de problemas sociais e ambientais.

O documentário também registra uma preocupação que vem das próprias águas. Os pescadores contestam a ideia de que um eventual vazamento de petróleo na região da Foz do Amazonas não teria impacto sobre o Marajó. Eles contam que objetos lançados ou perdidos em áreas próximas ao Oiapoque já apareceram nas praias do arquipélago, o que, segundo eles, mostra que a dinâmica das correntes é muito mais complexa do que aparece nos modelos usados para prever um possível vazamento.
No filme, a fala dos pescadores também revela o que está em jogo. A pesca que sustentou gerações está ficando cada vez mais difícil. Espécies como a pescada amarela e a pescada branca estão mais raras, segundo os relatos, enquanto a dourada, antes abundante, praticamente desapareceu de algumas áreas. Para encontrar peixe, muitos precisam ir cada vez mais longe, gastando mais combustível e ficando mais tempo longe de casa.

É essa realidade que “Território em Trânsito” levou para o FOSPA e para o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza. Mais do que falar sobre petróleo, o filme fala sobre território, sobrevivência e sobre quem vai pagar a conta caso novos projetos de exploração avancem sobre a Amazônia. Do Marajó para o mundo, os pescadores deixam um recado simples. Antes de decidir pelo futuro do petróleo, é preciso ouvir quem já vive há gerações nas águas que estão sendo colocadas em risco.
O documentário foi realizado pela Rede de Trabalho Amazônico GTA e pelo Coletivo Pororoka, com direção de Lucas Escócio e Lucas Negrão, câmera de Lucas Escócio, Lucas Negrão e João Paulo Guimarães, roteiro de Lucas Escócio, Lucas Negrão e João Paulo Guimarães, entrevistas e pesquisa de Elielson Almeida e Nelson Bastos, montagem de Lucas Escócio e produção e logística de Thiago Cabral e Nelson Bastos.