Às vésperas da COP30, Brasil escolhe o lado errado da história

A Rede GTA exige total transparência nos estudos de impacto ambiental, escuta ativa das comunidades afetadas, suspensão imediata de quaisquer ações que abram precedentes para produção em escala, e uma revisão urgente do modelo energético brasileiro. Não é possível falar em preservação da Amazônia de um lado e, do outro, permitir a entrada do petróleo por sua porta mais vulnerável.

Comunidade de pescadores do Marajó no Pará se unem em um grito de resistência e dizem NÃO para a exploração de Petróleo na Foz do Amazonas e para os combustíveis fósseis no Brasil.

No final de semana de outubro deste ano, antes do governo federal liberar o licenciamento para a PETROBRÁS iniciar a perfuração na Foz do Amazonas, a sociedade civil e associações marajoaras reuniram as comunidades do Marajó em defesa do território e contra a exploração de combustíveis fósseis dizendo não para a Petrobrás no encontro que aconteceu na Vila do Jubim. A Pré-COP30, evento que aconteceu em Salvaterra e reuniu delegações de quatro municípios marajoaras em torno da construção da “Carta da Pesca Artesanal Contra os Combustíveis Fósseis” foi histórico e mobilizou pescadoras, pescadores, lideranças comunitárias e representantes de organizações socioambientais em defesa da vida, da água e do território marajoara. O evento, realizado nos dias 17 e 18 de outubro, reuniu delegações de Salvaterra, Soure, Cachoeira do Arari e Santo Antônio do Tauá, fortalecendo o diálogo entre comunidades tradicionais que dependem da pesca artesanal e vêm sendo ameaçadas pelos projetos de exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas e no litoral paraense.

Com uma programação que combinou momentos de acolhida, místicas, debates e atividades culturais, o Fórum foi marcado pela construção coletiva da “Carta da Pesca Artesanal Contra os Combustíveis Fósseis”, documento que reafirma o compromisso das comunidades com a proteção dos ecossistemas costeiros, o fim dos combustíveis fósseis e a transição energética justa, com protagonismo dos povos das águas e das florestas.

A Rede de Trabalho Amazônico (GTA) realizou o evento e participou da mesa de abertura, destacando a importância de fortalecer a articulação entre comunidades locais e redes amazônicas de resistência frente às ameaças climáticas e aos impactos das indústrias extrativistas.

Sila Mesquita, Coordenadora Geral da Rede de Trabalho Amazônico com mais de 40 anos de luta pelas comunidades originárias e tradicionais, discursa na Pré-Cop da Pesca Artesanal que aconteceu na Vila de Jubim no Marajó.

O Fórum integra a agenda Pré-COP30, iniciativa que busca levar as vozes das comunidades amazônicas aos espaços internacionais de decisão climática, mostrando que a justiça climática começa nos territórios.

Segue abaixo a carta direcionada para movimentos sociais, sociedade e poder público. 

PRÉ-COP DA PESCA ARTESANAL. MANIFESTO DOS PESCADORES ARTESANAIS DA ILHA DA MARAJÓ.

Marajó Livre do Petróleo

Nós, pescadoras e pescadores artesanais, ribeirinhos, quilombolas dos municípios de Salvaterra, Soure… comunidades Santo Antônio do Tauá, Jobim, Vila do Espírito Santo, Vila do Pesqueiro, Praia do Pesqueiro  e povos e comunidades tradicionais do Arquipélago do Marajó, reunidos na Pré-COP dos Pescadores Artesanais, vimos publicamente declarar nossa posição contrária à exploração de combustíveis fósseis na Foz do Amazonas.

A ameaça da perfuração de petróleo na nossa costa não é apenas uma questão ambiental. É uma agressão direta aos nossos modos de vida, à nossa cultura, à nossa soberania alimentar e ao direito de existir como comunidades tradicionais. A Foz do Amazonas é berço de vida, fonte de sustento e território sagrado. A pesca artesanal, realizada há gerações, garante alimento para nossa gente e para milhares de brasileiros. A exploração petrolífera coloca em risco ecossistemas frágeis, manguezais, rios e a rica biodiversidade que sustenta nossa existência.

Comunidade marajoara se informa através de material didático que a Rede de Trabalho Amazônico levou para a asembléia que contou com participação de pescadores de vários territórios marajoaras.

Não nos calaremos diante das tentativas de intimidação e dos discursos enganosos. A Petrobrás e outras empresas do setor não nos iludirão com promessas vazias de riqueza e um “desenvolvimento” que, sabemos, chega para poucos e deixa um rastro de destruição para muitos. A nossa história e a dura realidade de outras comunidades ao longo do litoral brasileiro são testemunhas silenciosas desse modelo predatório. Em locais como Amazonas, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, vimos o petróleo chegar com a promessa de emprego e progresso, mas o que se viu foi o fim da pesca, a poluição das águas, a doença se espalhando e o tecido social das comunidades tradicionais sendo desfeito. Riqueza que não se vê, desenvolvimento que não se compartilha. Nosso modo de vida está no peixe que sustenta a família, no barco que é nossa ferramenta de trabalho, no rio que é nossa estrada e nossa identidade.

Portanto, declaramos que: Não seremos a próxima vítima desse ciclo de destruição disfarçado de progresso. Não aceitaremos que nosso Marajó seja mais um capítulo triste na história de conflitos socioambientais do país. Nossa resistência é a defesa de um futuro em que possamos continuar a ser o que sempre fomos. Pescadores e Pescadoras artesanais do Marajó, com peixes saudáveis 

O Marajó se levanta! Em defesa dos nossos rios e mar! Em defesa dos nossos territórios! Em defesa do nosso futuro!

Exigimos:

· O fim imediato dos projetos de exploração de petróleo e gás na Foz do Amazonas;

· O reconhecimento e a garantia dos nossos territórios tradicionais;

· Políticas públicas que fortaleçam a pesca artesanal e a economia solidária;

· A transição justa para fontes de energia verdadeiramente limpas e renováveis.

Convocamos a sociedade, as instâncias internacionais e os movimentos sociais a se somarem a essa luta. Não somos contra o desenvolvimento, mas a favor de um desenvolvimento que não destrua a vida.

Pelo direito de existir, pescar e viver com dignidade!

Marajó Livre do Petróleo!

Jubim, 18 de outubro de 2025

Assinaram a carta as Comunidades Pesqueiras do Arquipélago do Marajó e a Comunidade do Jubim.

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