O FUTURO NÃO ESTÁ À VENDA: MAF E GTA CONTRA O NOVO LEILÃO DO PETRÓLEO

O Movimento dos Atingidos pelos Combustíveis Fósseis, MAF Brasil, e a Rede de Trabalho Amazônico, GTA, manifestam seu repúdio ao leilão de petróleo realizado hoje, 7 de outubro de 2026, pela Agência Nacional do Petróleo.

Nesta manhã, sete dos treze blocos ofertados no pré-sal foram arrematados nas bacias de Santos e Campos. O leilão movimentou mais de R$ 530 milhões em bônus de assinatura e prevê pelo menos R$ 778 milhões em investimentos na etapa exploratória. Petrobras, Prio, Equinor e grandes grupos internacionais estão entre os vencedores. O governo apresenta esses números como investimentos. Nós perguntamos: investimentos para qual futuro?

Num planeta atravessado pela emergência climática, celebrar a abertura de novas áreas de petróleo significa insistir numa economia organizada pela expansão permanente da produção, do consumo e do lucro, mesmo quando os limites ecológicos já estão diante de nós.

O problema não é apenas de onde vem a energia. É quem controla a energia, quem controla os territórios, quem se apropria da riqueza produzida e quem fica com os danos.

Os blocos vendidos hoje aparecem nas planilhas como ativos econômicos. Mas nenhum território é vazio. Por trás de cada nova fronteira fóssil existe uma cadeia que chega aos mares dos pescadores artesanais, aos portos, às refinarias, às cidades, aos trabalhadores, aos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais. A riqueza sobe pela cadeia, a poluição, a doença e o risco climático ficam nos territórios.

O lucro é privado. O dano é coletivo. É essa lógica que precisamos romper.

Não aceitamos que o debate sobre o futuro do Brasil seja reduzido a quantos barris ainda podemos retirar do fundo do mar ou a quantos bilhões uma nova fronteira petrolífera poderá gerar. Desenvolvimento não pode continuar significando transformar natureza em mercadoria e territórios em plataformas de acumulação.

Também não aceitamos a chantagem de que é preciso escolher entre emprego e meio ambiente. Essa escolha é falsa. A verdadeira escolha é entre continuar financiando uma economia fóssil concentradora ou direcionar a capacidade econômica, tecnológica e financeira do país para produzir bem-estar, reduzir desigualdades e enfrentar a crise climática.

Transição energética justa não é acrescentar algumas fontes renováveis à matriz enquanto petróleo e gás continuam avançando. Não basta trocar a fonte de energia e preservar a mesma lógica de exploração. Precisamos democratizar a energia, fortalecer serviços públicos, transporte coletivo e limpo, agricultura familiar, ciência, tecnologia, economia da floresta e atividades que mantenham riqueza e trabalho nos territórios.

Precisamos também garantir uma transição para os trabalhadores da cadeia do petróleo. Nenhum trabalhador pode ser abandonado. Mas proteger empregos não pode ser confundido com proteger indefinidamente os lucros das empresas fósseis.

O leilão de hoje ocorre ainda num contexto de novas frentes de expansão. A própria ANP já estuda novos blocos na Margem Equatorial, enquanto o país amplia sua aposta na exploração de petróleo justamente quando deveria organizar uma trajetória real de redução da dependência dos combustíveis fósseis.

Por isso, defendemos a interrupção da abertura de novas fronteiras fósseis, a proteção integral das áreas de alta sensibilidade socioambiental, o respeito à Consulta Livre, Prévia e Informada e o cumprimento da Convenção 169 da OIT. Defendemos que povos, comunidades e trabalhadores tenham poder real sobre as decisões que afetam seus territórios e suas vidas.

O resultado anunciado hoje não é apenas o resultado de um leilão. É a expressão de uma escolha política.

De um lado, aprofundar um modelo que concentra riqueza, privatiza os ganhos e distribui os prejuízos ambientais e sociais.

Do outro, construir uma transição que coloque a economia a serviço da vida.

Nós escolhemos a vida.

O petróleo pode produzir lucros durante algumas décadas. A destruição de um território pode atravessar gerações.

DESENVOLVER NÃO É DESTRUIR.

Movimento dos Atingidos por Combustíveis Fosseis, MAF Brasil

Rede de Trabalho Amazônico, GTA

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