Um reencontro da Rede de Trabalho Amazônico GTA e do Sociólogo e pesquisador alemão Dieter Gawora, com memórias que não cicatrizam, mas também com afetos que nunca deixaram de florescer e dar esperança.
Crédito das imagens/João Paulo Guimarães.

Há um silêncio que só existe na Amazônia. Ele mora no olhar da criança que observa o mundo antes mesmo de aprender a nomeá-lo, no sorriso cansado de quem resistiu a décadas de promessas, na firmeza das mulheres que seguem de pé diante de tudo.

A expedição “25 Anos: Feridas e Resistência” não é apenas um retorno, mas um reencontro com memórias que insistem em não cicatrizar, mas também com afetos que nunca deixaram de florescer.

Entre rios, casas de madeira e caminhos de barro, o tempo passa diferente: ele escorre como água, mas guarda tudo. E o povo amazônida, do Norte, segue ali, vivendo, esperando, resistindo.

Passaram-se 25 anos desde que as primeiras denúncias sobre os impactos da indústria de petróleo e gás ecoaram por Coari, assim como as previsões da ciência.

De lá pra cá, bilhões foram gerados. O Brasil já produziu milhões de barris por dia, e só a venda da malha de gasodutos da Petrobras para a TAG, em 2019, movimentou cerca de 8,6 bilhões de dólares.

Ainda assim, a própria Petrobras segue pagando para usar a estrutura que construiu. Enquanto isso, aqui, onde o gás atravessa o chão e o petróleo marca o destino, faltam escolas dignas, saneamento básico, segurança alimentar.

Os royalties, que deveriam transformar realidades, chegam como promessa, mas raramente como mudança concreta na vida das comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais.Dizem que é a guerra, dizem que é o preço internacional, dizem que é necessário explorar mais.

Mas o petróleo que sai daqui não fica. Ele cruza oceanos, abastece outros mundos, enquanto este segue esperando. E nessa espera, há uma resistência que não grita, ela pulsa. Está no rosto das pessoas mais velhas, que carregam histórias como quem carrega o próprio território.

“Nessa espera, há uma resistência que não grita. Ela pulsa. Está no rosto das pessoas mais velhas, que carregam histórias como quem carrega o próprio território.”

Está nas mãos que ainda plantam, pescam, remam. Está no cotidiano de quem depende do rio para tudo: para beber, para comer, para viver e para sonhar. A campanha “Chega de Furar. É Hora de Cuidar.” nasce desse sentimento, de que já foi tirado demais, e que agora é tempo de devolver.

E talvez seja isso que mais emociona. Mesmo diante de tudo, ainda há esperança. Uma esperança que não é ingênua, é construída na luta. A justiça climática, tão falada nos grandes encontros, aqui tem nome, rosto e urgência.

Ela mora nesses corpos que resistem, nesses territórios que pedem paz. Uma transição energética justa não é um conceito distante, é a possibilidade concreta de um futuro onde essas pessoas possam viver com dignidade, com tranquilidade, com o direito simples e profundo de existir em harmonia com a floresta.

Porque, no fim, a Amazônia não pede muito. Ela só pede para continuar sendo.
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